Um estudo conduzido pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), em parceria com a FIA Business School, trouxe à tona um dado que redefine o entendimento sobre a dinâmica do endividamento no Brasil: as apostas esportivas online — as chamadas bets — já exercem impacto superior ao de juros e crédito como motor da dívida doméstica. O achado representa uma inversão histórica nos fatores tradicionais de endividamento das famílias brasileiras e coloca o mercado de apostas no centro de um debate macroeconômico que vai muito além da pauta regulatória.
Os números do estudo
A pesquisa analisou dados de endividamento no período entre 2011 e 2025, cruzando informações do Banco Central, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e de métricas de interesse por apostas em redes sociais. Os resultados são categóricos: o coeficiente de impacto das bets sobre o endividamento foi estimado em 0,2255 — mais do que o dobro da soma dos dois fatores tradicionais combinados. O crédito sobre a renda registrou coeficiente de 0,0440, enquanto os juros ao consumidor apresentaram impacto de 0,0709.
Em termos práticos, isso significa que o crescimento das apostas online exerce, sozinho, uma pressão sobre a dívida das famílias maior do que a política monetária e a expansão do crédito juntas. O dado é especialmente relevante em um momento em que a taxa Selic permanece em patamares elevados e o crédito consignado privado se expande com vigor.
O peso real no orçamento doméstico
Os impactos identificados pelo estudo encontram respaldo em pesquisas complementares. Um levantamento realizado pela Loft em 2025 revelou que 31% dos locatários entrevistados declararam ter atrasado o pagamento do aluguel — ou conhecer alguém que atrasou — em razão de gastos com apostas online. O dado reforça a tese de que o comprometimento de renda com bets não se limita a um público marginal ou financeiramente desestruturado, mas atinge famílias com compromissos regulares de moradia.
Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School, responsável pela coordenação da pesquisa, foi enfático ao contextualizar os resultados: "O crescimento acelerado do mercado de bets não é apenas uma questão regulatória ou tributária. É um fator macroeconômico com potencial de ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico no médio e longo prazo." Para Felisoni, a pesquisa demonstra que o fenômeno das apostas ultrapassou a esfera do comportamento individual e já constitui uma variável estrutural na equação da dívida nacional.
Resposta do setor: ANJL contesta metodologia
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que representa operadoras de apostas licenciadas no Brasil, reagiu ao estudo questionando a metodologia empregada. O principal ponto de contestação é o uso de métricas de interesse em redes sociais como proxy para mensurar o impacto financeiro real das apostas no orçamento das famílias. Segundo a ANJL, o aumento de buscas e menções a apostas não necessariamente se traduz em aumento proporcional de gastos — e, portanto, não deveria ser utilizado como variável explicativa para endividamento.
A associação argumenta ainda que o mercado regulamentado brasileiro, que entrou em vigor plenamente em janeiro de 2025, possui mecanismos de proteção ao apostador — como autolimites de depósito, autoexclusão e proibição de crédito para apostas — que não existiam no período pré-regulação analisado pelo estudo. Para a ANJL, atribuir o endividamento às bets sem distinguir o ambiente regulamentado do não regulamentado distorce as conclusões.
Implicações para a política pública
Independentemente do debate metodológico, o estudo do Ibevar e da FIA levanta questões que provavelmente pautarão decisões regulatórias ao longo de 2026. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) já sinalizou a intenção de ampliar as exigências de jogo responsável para operadoras licenciadas, incluindo a possibilidade de limites compulsórios de depósito — e não apenas voluntários — para apostadores com perfil de risco identificado.
No Congresso, parlamentares de diferentes bancadas têm utilizado dados sobre endividamento como argumento para propostas que vão desde a proibição de publicidade de apostas em horário nobre até a criação de um fundo de tratamento para jogo patológico, financiado por percentual do GGR das operadoras. O estudo do Ibevar fornece munição técnica para essas discussões, ao estabelecer uma correlação estatística robusta entre a expansão das bets e o aumento da dívida doméstica.
O cenário que se desenha é de tensão crescente entre a agenda de crescimento do mercado regulamentado — que já soma 185 operadoras licenciadas e bilhões em arrecadação — e a pressão social para conter os efeitos colaterais de uma atividade que, segundo os dados mais recentes, já se tornou o principal vetor de endividamento das famílias brasileiras.