Estudo da Regulus Partners posiciona Brasil como potência global em apostas reguladas; acordo inédito entre COAF, FEBRABAN e ABBC cria selo de conformidade e sistema de IA para detecção de crimes financeiros no ecossistema de iGaming
O Brasil encerrou 2025 como o quinto maior mercado global de apostas, com receita estimada em US$ 4,1 bilhões (aproximadamente R$ 22 bilhões), segundo estudo da consultoria britânica Regulus Partners, especializada em análise de mercados de jogos e apostas. O país aparece pela primeira vez no ranking da consultoria, atrás apenas de Estados Unidos, Reino Unido, Rússia e Itália — resultado direto de 2025 ter sido o primeiro ano completo de operação sob a regulamentação da Lei 14.790/2023.
Os números do mercado brasileiro
Os dados revelam a velocidade da consolidação do mercado regulado. O Brasil conta com aproximadamente 25 milhões de apostadores ativos, o que representa cerca de 12% da população. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda contabiliza 187 plataformas autorizadas até abril de 2026.
Do ponto de vista fiscal, os resultados superaram projeções iniciais. Entre janeiro e setembro de 2025, o governo federal arrecadou mais de R$ 3 bilhões em tributos federais oriundos de operadoras de apostas, conforme dados obtidos via Lei de Acesso à Informação. No acumulado do ano, o setor gerou R$ 36,9 bilhões em receita bruta e R$ 9,95 bilhões em arrecadação tributária.
Carlos Fábio, presidente da Comissão Especial de Jogos e Entretenimento Eletrônico da OAB, contextualizou a transformação: "O país saiu de um cenário de completa informalidade para um ambiente muito mais regulado, com regras mais claras. O resultado no ranking da Regulus Partners é consequência direta dessa transição."
O desafio da ilegalidade persistente
Apesar dos avanços regulatórios, o mercado brasileiro de apostas ainda convive com um problema estrutural: a ilegalidade persistente. Isaac Sidney Menezes Ferreira, presidente da FEBRABAN (Federação Brasileira de Bancos), tem alertado publicamente que cerca de 40% do mercado de apostas no Brasil permanece irregular — operado por plataformas offshore sem licença da SPA, sem recolhimento de tributos e sem cumprimento das exigências de proteção ao apostador.
O presidente da FEBRABAN também chamou atenção para o que classificou como "explosão dos riscos de crimes financeiros" desde a legalização das apostas. Segundo dados citados pela entidade, aproximadamente 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família realizaram transferências para plataformas de apostas — dado que levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a impor restrições sobre o uso de recursos de programas sociais em apostas.
Acordo COAF-FEBRABAN-ABBC: IA contra lavagem de dinheiro
Em resposta ao crescimento dos riscos financeiros associados ao mercado de apostas, o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) firmou em 19 de março de 2026 um acordo de cooperação técnica com a FEBRABAN e a ABBC (Associação Brasileira de Bancos) para modernizar os mecanismos de prevenção e combate à lavagem de dinheiro (PLD/FTP) no ecossistema financeiro — com alcance explícito sobre o setor de apostas.
O acordo prevê cinco eixos de atuação:
1. Desenvolvimento de sistema tecnológico para o COAF: as instituições financeiras contribuirão financeiramente para a criação de uma nova plataforma de análise e cruzamento de dados, substituindo sistemas legados que limitavam a capacidade de detecção de operações suspeitas.
2. Inteligência artificial para detecção de crimes financeiros: o novo sistema incorporará modelos de IA para identificação de padrões de lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo e movimentações atípicas — incluindo fluxos entre contas bancárias e plataformas de apostas.
3. Selo de Conformidade em PLD/FTP: será lançado um selo que certificará instituições financeiras e empresas do ecossistema de apostas que comprovarem aderência às normas de prevenção à lavagem de dinheiro. A iniciativa visa criar um padrão de mercado verificável por reguladores, parceiros comerciais e consumidores.
4. Escopo ampliado: além de bancos tradicionais, o acordo abrange fintechs, empresas de criptomoedas, processadoras de pagamento e operadoras de apostas. Cinco entidades assinaram o termo: ABBC, Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), ABFintechs, Abranet e Zetta (associação de fintechs).
5. Capacitação e compartilhamento de informações: o acordo estabelece programas de treinamento contínuo e protocolos de compartilhamento de inteligência financeira entre as entidades signatárias e o COAF.
Implicações para o setor de iGaming
O acordo tem consequências diretas para as operadoras de apostas licenciadas. As 187 plataformas autorizadas pela SPA já são obrigadas pela Lei 14.790/2023 a implementar programas de PLD/FTP. No entanto, o novo sistema do COAF — alimentado por IA e integrado com o sistema bancário — representará um salto qualitativo na capacidade de fiscalização. Transações entre contas de apostadores e plataformas de apostas poderão ser monitoradas em tempo real, com alertas automáticos para movimentações que se desviem dos padrões esperados.
Para operadoras em conformidade, o Selo de Conformidade pode se tornar um diferencial competitivo — sinalizando a bancos, processadores de pagamento e ao próprio mercado que a empresa atende aos mais altos padrões de prevenção à lavagem de dinheiro. Para operadoras irregulares, o cerco se aperta: a integração entre COAF, sistema bancário e SPA torna significativamente mais difícil movimentar recursos de origem ilícita através do ecossistema de apostas.
Agenda Regulatória 2026-2027 da SPA
O fortalecimento do combate à lavagem de dinheiro se alinha com a Agenda Regulatória da SPA para o biênio 2026-2027, atualmente em consulta pública. A proposta prevê, entre outros pontos, a revisão dos procedimentos de monitoramento e supervisão de operadoras no quarto trimestre de 2026 e a avaliação das normas de PLD/FTP ao longo de 2027, com possível modernização dos requisitos impostos ao setor.
A convergência entre o ranking da Regulus Partners e o acordo COAF-FEBRABAN-ABBC conta uma história consistente: o Brasil não apenas se consolidou como potência global no mercado de apostas reguladas, mas está construindo — com atraso, porém com determinação — a infraestrutura institucional necessária para que esse crescimento seja sustentável. A escala do mercado exige sofisticação proporcional no combate a crimes financeiros. O acordo de março de 2026 é o reconhecimento institucional de que a regulamentação de 2023 foi o primeiro passo, não o último.