De 18 para 12: o recuo das bets nas camisas do futebol
O Brasileirão 2026 começou com uma mudança visível nos uniformes: apenas 12 dos 20 clubes da Série A exibem marcas de casas de apostas como patrocinadoras principais, uma queda de 33% em relação a 2025, quando 18 equipes mantinham acordos com empresas do setor. O dado, levantado pelo Poder360, sinaliza que o mercado de apostas brasileiro está entrando em uma nova fase — de consolidação, não mais de expansão desenfreada.
Quem saiu, quem ficou
A redução aconteceu após o fim dos contratos de Vasco, Grêmio, Internacional, Coritiba, Bahia e Santos, que encerram 2025 sem renovar com casas de apostas e ainda não anunciaram novos patrocinadores máster. Também não exibem marcas de bets o RB Bragantino — que estampa o energético do grupo controlador — e o Mirassol, patrocinado pelo refrigerante Guaraná Poty.
Entre os que permaneceram, os valores se concentram no topo. O Flamengo lidera de forma disparada com o contrato com a Betano: R$ 268 milhões por ano, o maior patrocínio máster da história do futebol brasileiro. O acordo, válido até dezembro de 2028, pode chegar a R$ 932,5 milhões considerando variáveis de performance. Na sequência, o Corinthians aparece com R$ 103 milhões anuais pagos pela Esportes da Sorte, seguido pelo Palmeiras, patrocinado pela Sportingbet com R$ 100 milhões por temporada.
Por que as bets recuaram
A explicação combina regulamentação e tributação. O primeiro aniversário do mercado regulado brasileiro coincide com o aumento da carga tributária sobre as operadoras: a alíquota sobre receita bruta subiu de 12% para 13% em 2026, e seguirá para 14% em 2027 e 15% em 2028. Somados os custos de licenciamento (R$ 30 milhões por outorga), compliance com regras de KYC, prevenção à lavagem de dinheiro e jogo responsável, muitas operadoras reavaliaram seus orçamentos de marketing.
"Com a regulação, as empresas começaram a recolher mais impostos, reduzindo o montante disponível para publicidade", explica análise do BNLData. O resultado é uma seleção natural: operadoras menores ou com margens mais apertadas estão cortando patrocínios esportivos, enquanto as maiores concentram investimentos em menos clubes, mas com valores mais altos.
Consolidação, não crise
Especialistas alertam que a queda no número de camisas estampadas não significa necessariamente menos dinheiro no futebol. As operadoras estão realocando recursos para competições regionais, arenas multiuso, embaixadores digitais e programas de televisão — canais que oferecem melhor custo-benefício em um cenário de margens pressionadas.
A tendência é de um mercado que deixa a fase de expansão acelerada — quando praticamente qualquer operadora estampava qualquer camisa — para entrar em um estágio de consolidação, com menos marcas, estratégias mais seletivas e foco maior em segurança jurídica e retorno de imagem.
Para os clubes que perderam patrocinadores de bets, o desafio agora é diversificar. A dependência histórica de um único setor para patrocínio máster expôs uma vulnerabilidade que dirigentes preferiam ignorar quando os contratos eram generosos. Com o mercado se ajustando, o futebol brasileiro terá que buscar alternativas — ou aceitar valores menores em novas negociações com operadoras que agora calculam cada real investido em marketing.