Um novo campo de batalha regulatória se abre no mercado financeiro e de apostas brasileiro. A Kalshi, plataforma americana de mercados preditivos cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, acertou parceria com a XP Investimentos para oferecer seus contratos a clientes brasileiros — em uma operação offshore, inicialmente restrita a usuários da corretora Clear com conta internacional. A movimentação acelerou um debate que já estava latente no Congresso, na Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) e na Comissão de Valores Mobiliários (CVM): afinal, mercados preditivos são apostas ou instrumentos financeiros?
O que são os mercados preditivos
Nos chamados prediction markets, participantes compram e vendem contratos atrelados ao resultado de eventos futuros — de eleições presidenciais a campeonatos esportivos, da inflação do mês até quem vai ganhar o Oscar. Diferentemente de uma aposta tradicional, esses contratos podem ser negociados livremente antes do evento, criando um "preço de mercado" que reflete a probabilidade percebida pelo conjunto dos participantes.
A Kalshi se tornou conhecida internacionalmente ao criar mercados sobre eventos macroeconômicos como o resultado de decisões do Fed, a taxa de desemprego americana e até escândalos políticos. A empresa movimentou US$ 64 bilhões em negociações nos EUA em 2025, segundo estimativas do setor — um número que ilustra a escala do fenômeno global.
A disputa brasileira
No Brasil, a chegada da Kalshi gerou reação imediata de dois flancos distintos. De um lado, as operadoras de apostas esportivas licenciadas pela SPA — representadas pelo IBJR — argumentam que mercados preditivos relacionados a eventos esportivos nada mais são do que uma variante de aposta e, portanto, deveriam estar sujeitos às mesmas regras e tributação que as bets tradicionais. André Gelfi, presidente do IBJR, disse publicamente que o modelo tenta ocupar um mercado já dominado por empresas reguladas.
Do outro lado, a B3 e corretoras como a própria XP veem os prediction markets como instrumentos financeiros — mais próximos de derivativos do que de apostas — e enxergam no segmento uma oportunidade de diversificar a oferta para investidores de varejo. Para esse campo, a regulação adequada seria da CVM, não da SPA.
O nó regulatório
A indefinição cria um vácuo que beneficia, por enquanto, quem opera offshore. A parceria XP-Kalshi, ao estruturar as operações fora da jurisdição brasileira, evita a necessidade de autorização regulatória local — ao menos por ora. Mas especialistas apontam que essa janela tende a se fechar à medida que o volume de negócios crescer e atrair a atenção de reguladores.
No Congresso, propostas de regulamentação dos mercados preditivos ainda estão em fase inicial de discussão, sem consenso sobre qual órgão deveria ter primazia — SPA, CVM ou uma regulação compartilhada. O Ministério da Fazenda, que tutela tanto a SPA quanto tem interface com a CVM, deverá ter papel central na definição do modelo.
Impacto para o iGaming brasileiro
Para o setor de iGaming, a questão é estratégica. Se os mercados preditivos forem classificados como apostas, as operadoras licenciadas terão legitimidade para exigir que plataformas como Kalshi e Polymarket obtenham licença da SPA — ou operem na ilegalidade. Se forem classificados como instrumentos financeiros, abre-se espaço para que bancos, corretoras e fintechs entrem no setor sem as exigências da regulação de apostas.
A discussão está apenas começando no Brasil, mas o desfecho terá implicações diretas sobre quem vai capturar um mercado potencialmente bilionário — e como ele será tributado. Com a Copa do Mundo 2026 no horizonte, a pressão por definição regulatória deve se intensificar nos próximos meses.