A Receita Federal divulgou nesta terça-feira (24 de março) dados que mostram um salto histórico na arrecadação com casas de apostas esportivas no Brasil. No primeiro bimestre de 2026, o governo federal arrecadou R$ 2,5 bilhões com as chamadas bets — alta de 236% sobre os R$ 756 milhões registrados no mesmo período de 2025. Só em fevereiro, o valor chegou a R$ 1,0 bilhão.
Segundo o Fisco, o crescimento está diretamente ligado à consolidação da regulamentação do mercado de apostas de quota fixa, com a plena entrada em vigor das regras para operação legal das empresas no país. A formalização do setor ampliou significativamente a base tributável e permitiu à Receita identificar receitas que anteriormente operavam fora do alcance da fiscalização.
Como funciona a tributação
A regulamentação aprovada em 2023 e em vigor desde 1º de janeiro de 2025 estabeleceu o imposto de 12% sobre o GGR (Gross Gaming Revenue) — a receita bruta de apostas, calculada sobre o total apostado menos os prêmios pagos aos usuários. Com 187 plataformas atualmente licenciadas pela SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda), o volume tributável cresceu substancialmente.
Além do imposto sobre o GGR, as operadoras recolhem IRPJ, CSLL e contribuições previdenciárias. A combinação desses tributos, aplicada sobre um mercado que opera há mais de um ano em regime regulatório pleno, explica a magnitude do crescimento na arrecadação.
Alíquota sobe gradualmente até 2028
Em dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovou o PLP 128/2025, que estabelece um escalonamento progressivo da carga tributária sobre o setor de jogos. A alíquota sobre o GGR, hoje em 12%, passará para 13% em 2026, 14% em 2027 e 15% em 2028.
A medida foi alvo de resistência por parte das operadoras, que argumentaram que o aumento poderia comprometer a competitividade das plataformas licenciadas frente a operadores ilegais que não recolhem tributos. O IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável), que reúne as principais bets legalizadas do país, defendeu que qualquer aumento de alíquota deveria ser acompanhado de maior rigor na fiscalização de plataformas clandestinas.
Copa do Mundo 2026 como catalisador
Com a Copa do Mundo prevista para junho e julho de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México, o setor projeta um salto adicional nas apostas esportivas. Projeções oficiais apontam para até R$ 18 bilhões em arrecadação total ao longo do ano — número que dependeria, entre outros fatores, do desempenho da seleção brasileira e da capacidade das operadoras de converter o interesse em volume apostado.
O torneio deve gerar um pico de apostas sem precedentes no país, em razão da combinação de ambiente regulatório maduro, base de usuários crescente e o apelo do Brasil como seleção candidata ao título. Especialistas do setor estimam que as semanas da Copa podem representar entre 30% e 40% do volume anual de apostas esportivas.
Perspectivas para o mercado
Os números da Receita Federal reforçam a tese de que a regulamentação do setor cumpriu um de seus objetivos centrais: transformar um mercado que operava majoritariamente no informal em uma indústria tributada e fiscalizada. O desafio que permanece é garantir que as plataformas ilegais — que ainda operam fora do alcance da SPA — não drenem uma fatia relevante do mercado em detrimento das licenciadas.
Para as operadoras, o cenário de 2026 combina oportunidade e pressão: mais receita potencial com a Copa, mas também alíquota maior e exigências crescentes de compliance, jogo responsável e proteção ao consumidor. O equilíbrio entre crescimento e sustentabilidade regulatória será o principal tema do setor nos próximos meses.