O Brasil chegou a março de 2026 com um título inédito no cenário global do iGaming: segundo maior mercado de apostas do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O dado foi apresentado pelo representante do Ministério do Esporte em audiência pública na Câmara dos Deputados, e reflete a transformação acelerada que o país viveu nos últimos dois anos desde a aprovação da Lei 14.790/2023.
Os números do mercado
As projeções são ambiciosas e, até agora, têm se confirmado. O setor de iGaming no Brasil deve gerar mais de US$ 5 bilhões em receita bruta (GGR) em 2026, segundo relatório da consultoria H2 Gambling Capital. O crescimento é estimado em 40% em relação a 2025 — ano de transição, quando o mercado ainda se adaptava ao novo marco regulatório. Para 2030, as projeções apontam para um mercado de US$ 9 a 11 bilhões, praticamente o dobro dos números atuais.
O número de operadoras licenciadas chegou a 186 em março de 2026, segundo dados da SPA. São empresas de 27 países diferentes, com predominância de grupos europeus (Reino Unido, Malta, Gibraltar) e nacionais. A diversidade geográfica dos operadores reflete o interesse global pelo mercado brasileiro: nenhum outro país regulamentou apostas nos últimos anos com uma base de consumidores comparável — são estimados 30 a 35 milhões de apostadores ativos no Brasil, em um país de 215 milhões de habitantes com alta penetração digital e cultura esportiva intensa.
Por que o Brasil cresceu tão rápido
Especialistas apontam três fatores principais para o crescimento acelerado. Primeiro, a base de consumidores: o Brasil tem uma das maiores populações de usuários de smartphones da América Latina, com cerca de 160 milhões de aparelhos ativos. A combinação de conectividade, bancarização crescente (acelerada pelo Pix) e paixão por futebol criou o ambiente perfeito para o crescimento das apostas online.
Segundo, o modelo de patrocínios esportivos. As operadoras investiram bilhões em patrocínios de clubes de futebol da Série A e B do Brasileirão, tornando as marcas de apostas onipresentes para o público esportivo. Estimativas indicam que mais de 70% dos clubes da primeira divisão têm contratos ativos com operadoras de apostas — fenômeno que gerou debate público mas também impulsionou o crescimento das bases de usuários.
Terceiro, o Pix. A adoção massiva do sistema de pagamento instantâneo brasileiro facilitou dramaticamente os depósitos e saques nas plataformas de apostas, eliminando a fricção que historicamente limitava o crescimento do mercado online. Operadoras reportam que mais de 85% das transações no Brasil são feitas via Pix — um índice que não tem paralelo em nenhum outro mercado global.
Desafios para sustentar o crescimento
O crescimento acelerado traz desafios igualmente grandes. A questão do impacto social é o mais delicado: com 30 milhões de apostadores ativos, mesmo que apenas 5% desenvolvam comportamento problemático, estamos falando de 1,5 milhão de pessoas com potencial dependência. O Sistema Nacional de Autoexclusão, lançado pela SPA, é uma resposta a essa preocupação, mas especialistas em saúde pública alertam que as ferramentas de proteção precisam escalar na mesma velocidade que o mercado.
A arrecadação tributária também está sob análise. Com 15% de GGR em impostos, o setor já representa uma fonte relevante de receita para o governo federal, com projeção de R$ 6 bilhões em impostos para 2026. O debate sobre destinação desses recursos — esporte, saúde pública, educação financeira — promete ser um dos temas centrais da agenda regulatória nos próximos meses.