O mercado brasileiro de apostas, até pouco tempo atrás receptor de investimentos estrangeiros, começa a exportar operadoras. A Esportes da Sorte e a Betnacional, duas das maiores empresas de apostas de capital nacional, obtiveram licenças de operação na Colômbia junto à Coljuegos (autoridade reguladora colombiana) e devem iniciar operações no país até maio de 2026. Simultaneamente, um grupo empresarial brasileiro — que a reportagem não está autorizada a identificar — negocia a aquisição de uma licença de operação no México através do estado de Jalisco.
A estratégia de internacionalização
A expansão internacional das operadoras brasileiras reflete a maturação do mercado doméstico e a busca por diversificação geográfica. "O Brasil continua sendo nossa prioridade, mas a América Latina oferece oportunidades significativas. A Colômbia tem um mercado regulado desde 2016, com 7 milhões de apostadores ativos e crescimento de 30% ao ano", explicou Darwin Henrique da Silva Filho, CEO da Esportes da Sorte, que planeja investir R$ 80 milhões na operação colombiana. A empresa pretende replicar a estratégia que a tornou uma das líderes no Brasil: patrocínios esportivos agressivos e foco no público jovem.
Modelo regulatório brasileiro como referência
A expansão coincide com um interesse crescente de países latino-americanos pelo modelo regulatório brasileiro. Delegações de Peru, Chile, Equador e Paraguai visitaram a SPA nos últimos dois meses para conhecer o arcabouço regulatório da Lei 14.790/2023. O Peru, que debate uma lei de apostas desde 2024, incorporou elementos do modelo brasileiro em seu projeto — incluindo a exigência de licença nacional, tributação sobre GGR e sistema de autoexclusão unificado.
O México, maior mercado potencial da América Latina depois do Brasil, é o alvo mais ambicioso. Com 130 milhões de habitantes e penetração crescente de smartphones, o país regulamentou apostas online em nível estadual, criando um mosaico regulatório que empresas brasileiras veem como oportunidade. "Quem chegar primeiro com uma operação profissional e regulada terá vantagem competitiva significativa quando a regulação federal mexicana vier — e ela vai vir", avaliou Gustavo Moreira, analista de iGaming da XP Investimentos.
A tendência de internacionalização levanta questões sobre a capacidade das operadoras brasileiras de competir com gigantes globais em mercados estrangeiros. A vantagem competitiva apontada pelos executivos é o conhecimento profundo do público latino-americano — preferências esportivas, hábitos de consumo digital e cultura de pagamentos —, algo que operadoras europeias e asiáticas demoram anos para desenvolver. Se a aposta na expansão regional se concretizar, o Brasil pode se tornar não apenas o maior mercado de iGaming da América Latina, mas também o principal exportador de expertise e capital do setor na região.