O retrato completo do primeiro ano das bets legais no Brasil
O primeiro ano do mercado regulado de apostas esportivas no Brasil já tem números oficiais — e eles impressionam. Segundo dados do Painel das Bets, iniciativa conjunta da plataforma Aposta Legal e da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), o setor movimentou R$ 36 bilhões em receita ao longo de 2025, consolidando o país como o quinto maior mercado de apostas do planeta, atrás apenas de Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Rússia.
Os dados, divulgados na primeira semana de abril de 2026, traçam o perfil mais detalhado já produzido sobre o comportamento do apostador brasileiro no ambiente regulado. São 25 milhões de CPFs únicos cadastrados em plataformas licenciadas — o equivalente a um em cada dez brasileiros adultos. Cada apostador gerou, em média, R$ 1.431 de receita para as operadoras ao longo do ano, um ticket médio que posiciona o Brasil entre os mercados com maior engajamento per capita da América Latina.
100 milhões de contas e 26 bilhões de visitas
Um dos dados mais reveladores do levantamento é a discrepância entre o número de apostadores únicos (25 milhões) e o total de contas ativas nas plataformas: mais de 100 milhões. A explicação está no comportamento de multi-conta: segundo o Painel das Bets, 48% dos usuários concentram suas apostas em uma única operadora, mas 24,5% mantêm contas em quatro ou mais plataformas simultaneamente — atraídos por bônus de cadastro, odds diferenciadas ou promoções específicas.
O volume de tráfego nas plataformas também registrou crescimento explosivo. As operadoras licenciadas receberam 26,39 bilhões de visitas ao longo de 2025, uma alta de 275% em relação aos 7,03 bilhões de visitas registradas em 2024 — quando o mercado ainda operava majoritariamente sem regulação formal. O salto reflete tanto o crescimento orgânico do setor quanto a migração de usuários de plataformas ilegais para operadoras licenciadas.
Perfil do apostador: quase metade vê apostas como renda
Os dados comportamentais do Painel das Bets acendem alertas importantes para o debate sobre jogo responsável. Segundo o levantamento, 49% dos apostadores encaram as apostas como uma forma de renda complementar — não como entretenimento. Outros 43,5% declararam que apostam com a expectativa de obter ganhos que "mudem de vida". Apenas uma minoria trata a atividade exclusivamente como lazer.
Esses números reforçam a necessidade de políticas robustas de jogo responsável, tema que tem sido central na agenda da SPA. A percepção de apostas como fonte de renda, especialmente entre as faixas de menor poder aquisitivo, é considerada por especialistas como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de comportamento problemático. "Quando o apostador trata a bet como investimento, ele tende a aumentar o volume apostado para compensar perdas — o que é exatamente o padrão de comportamento que queremos prevenir", avalia um consultor do setor ouvido pelo Portal iGaming.
Combate à ilegalidade: 25 mil sites bloqueados
O balanço também traz dados sobre o combate ao mercado ilegal. Desde a entrada em vigor da regulação, as autoridades brasileiras bloquearam mais de 25 mil sites de apostas que operavam sem licença da SPA. Hoje, apenas 186 marcas legais estão autorizadas a operar no país — um número que deve se estabilizar à medida que o processo de licenciamento definitivo avança.
A concentração do mercado legal em um número relativamente pequeno de operadoras, combinada com o bloqueio massivo de sites ilegais, tem gerado resultados concretos em arrecadação. Dados da Receita Federal mostram que o setor de apostas gerou R$ 2,54 bilhões em tributos federais apenas nos dois primeiros meses de 2026 — uma alta de 236% em relação ao mesmo período de 2025. No acumulado de janeiro a setembro de 2025, a arrecadação havia superado R$ 3 bilhões.
Brasil na elite global das apostas
Os números do Painel das Bets confirmam a trajetória ascendente do Brasil no cenário global de iGaming. Segundo levantamento da consultoria britânica Regulus Partners, o país encerrou 2025 como o quinto maior mercado mundial, com receita estimada em US$ 4,1 bilhões (aproximadamente R$ 22 bilhões pela cotação média do período). O dado do Senado Federal indica ainda que o mercado brasileiro já conta com 12% da população adulta como apostadora ativa.
Com o BiS SiGMA South America 2026 acontecendo nesta semana em São Paulo, os dados chegam em momento estratégico para o setor. A expectativa é que os números alimentem debates sobre tributação progressiva — o PLP 128/2025 propõe elevar a alíquota sobre GGR de 12% para 15% até 2028 — e sobre o aprimoramento das políticas de jogo responsável para o segundo ano do mercado regulado.
O retrato que emerge do primeiro balanço anual é de um mercado que cresceu acima das expectativas em volume e engajamento, mas que ainda enfrenta desafios estruturais significativos: a percepção equivocada de apostas como fonte de renda, a persistência de multi-contas que dificultam o monitoramento individual, e a necessidade de consolidar o combate à oferta ilegal. O segundo ano da regulação será decisivo para demonstrar se o arcabouço brasileiro consegue equilibrar crescimento econômico com proteção efetiva ao consumidor.