As apostas online se consolidaram como o principal motor de endividamento das famílias brasileiras, superando outros fatores tradicionais como cartão de crédito rotativo e financiamentos. A conclusão é de estudo da FIA Business School, coordenado pelo professor Claudio Felisoni, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), divulgado em março de 2026.
Os números por trás do problema
O estudo da FIA se apoia em dados da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e do SPC Brasil, levantados em 2025: 39,5 milhões de brasileiros utilizaram plataformas de apostas nos 12 meses anteriores à pesquisa. Desse universo, 19% — aproximadamente 7,5 milhões de pessoas — admitiram ter comprometido parte da renda familiar com apostas.
Para Felisoni, o impacto brasileiro é estruturalmente mais grave do que em países desenvolvidos como os Estados Unidos, onde fenômeno similar foi documentado: "O endividamento das famílias no Brasil tem uma dimensão totalmente diferente. As taxas de juros aqui praticadas tornam a situação dos locais absolutamente insustentável. Não há como pagar. Consequência: freia consumo de bens e serviços inclusive básicos, tais como saúde, mobilidade."
Como as bets capturam o apostador
Ana Leoni, CEO da Planejar (associação responsável pela certificação de planejadores financeiros no Brasil), aponta os mecanismos psicológicos que tornam as apostas especialmente perigosas para a saúde financeira das famílias. Dois vieses cognitivos são centrais: a falácia dos custos irrecuperáveis — a crença de que é possível recuperar o que já foi perdido — e o viés de confirmação, quando uma aposta vencedora cria a ilusão de que o ganho é duradouro.
"Tudo que envolve dinheiro traz o risco de levar a perda de controle. Principalmente por causa de vieses, como o da falácia dos custos irrecuperáveis, que é a certeza de que podemos recuperar aquilo que já perdemos, ou o viés da confirmação, quando uma aposta dá certo e a gente acha que vai continuar ganhando só porque quer muito", explica Leoni.
Publicidade excessiva como acelerador
O estudo também aponta o papel da publicidade massiva na expansão do problema. Ana Leoni defende que a propaganda das bets deveria passar por limitações semelhantes às impostas a produtos nocivos: "O excesso de publicidade acaba levando a pessoa à distorção de uma realidade, de que ela pode ganhar muito dinheiro de forma rápida."
A posição ecoa um debate crescente no Congresso e na SPA. Com a troca de liderança na secretaria em março de 2026, o setor aguarda regulamentação mais detalhada sobre horários, linguagem e restrições de público-alvo nas campanhas publicitárias das operadoras — tema que promete ser um dos mais disputados do segundo semestre.
Mercado regulado como parte da solução
O IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável) reforça que as casas de apostas regulamentadas implementaram medidas como autolimites obrigatórios de tempo e valor apostado, autoexclusão via SNA (Sistema Nacional de Autoexclusão da SPA) e exclusão de Pix automático — mecanismo proibido nas plataformas legais, mas comum no mercado ilegal.
Para especialistas, a solução passa por duas frentes simultâneas: pressão regulatória sobre operadoras (limites de publicidade, ferramentas de jogo responsável obrigatórias) e educação financeira do apostador. "A dica é sempre limitar o acesso, definindo limites de valor financeiro", resume Leoni, ressaltando que o autocontrole do usuário permanece componente insubstituível da equação.
Impacto no varejo e na economia real
A correlação entre apostas e redução do consumo começa a aparecer nos dados macroeconômicos. Pesquisas do setor varejista apontam compressão do ticket médio em categorias de consumo básico em regiões com maior penetração de bets. O estudo da FIA sugere que o desvio de renda familiar para apostas pode estar contribuindo para a desaceleração do consumo doméstico observada no início de 2026 — um sinal de alerta que deve ganhar ainda mais atenção dos formuladores de política econômica nos próximos meses.