O primeiro ano do mercado regulado de apostas no Brasil gerou R$ 37 bilhões em receita bruta de jogo (GGR) — mas os verdadeiros vencedores e perdedores só ficam claros quando se analisa a evolução do market share. Dados da empresa de inteligência de mercado Blask, publicados pelo iGaming Future, mostram uma reorganização profunda da competição entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026.
Os vencedores: experiência internacional como vantagem
A Betano consolidou-se como líder absoluta. Já era a marca mais popular em janeiro de 2025, com 17,85% de participação medida pelo indicador BAP (Brand Attention Points). Em fevereiro de 2026, esse número saltou para 26,96% — efetivamente um quarto de toda a atenção do mercado. O crescimento de 9 pontos percentuais em 12 meses é inédito no setor.
A bet365 subiu da 3ª para a 2ª posição, com BAP passando de 8,67% para 10,79%. Mas o caso mais dramático é o da Superbet: partiu da 8ª posição (3,94%) para a 3ª (8,49%), mais que dobrando sua participação em pouco mais de um ano.
O padrão entre os três líderes é consistente: operadoras com experiência internacional aproveitaram o ambiente regulado para acelerar o crescimento, investindo em marketing, compliance e infraestrutura tecnológica que operadores menores não conseguem acompanhar.
A queda da Esportes da Sorte
Do outro lado, a Esportes da Sorte registrou a maior queda entre as marcas relevantes. Caiu da 2ª para a 6ª posição, com seu BAP quase reduzido pela metade. A derrocada não foi puramente competitiva: em setembro de 2024, o proprietário da marca foi preso na Operação Integration, investigação federal sobre lavagem de dinheiro. Embora uma liminar tenha permitido a continuidade das operações em janeiro de 2025, a marca foi posteriormente citada em depoimento à CPI das Bets no Senado, levando o Athletico Paranaense a rescindir seu contrato de patrocínio.
Outras marcas também sofreram: a Betnacional caiu da 5ª para a 7ª posição, a Blaze despencou de 3,12% para 1,25% de BAP, e a Brabet — uma das poucas marcas não licenciadas que mantinham posição no Top 10 — desabou da 7ª para a 17ª colocação.
Novos entrantes e o efeito da fiscalização
Apesar da concentração no topo, o mercado não está fechado. Três marcas que sequer figuravam no Top 100 em janeiro de 2025 entraram no Top 20 até fevereiro de 2026: a R7.bet saltou para a 9ª posição, a BullsBet para a 12ª, e a DonaldBet saiu da 39ª para a 16ª.
O número de operadoras autorizadas cresceu de cerca de 120 em janeiro de 2025 para 157 em dezembro. Ainda assim, quanto mais marcas entraram no mercado licenciado, mais a atenção se concentrou nos líderes — um padrão comum em mercados regulados em processo de maturação.
A fiscalização foi determinante nessa reorganização. Das 38 marcas não licenciadas que figuravam no Top 100 por BAP em janeiro de 2025, apenas 11 permaneciam em fevereiro de 2026. A Anatel retirou do ar quase 15.500 páginas de apostas ilegais desde outubro de 2024, segundo relatório do primeiro semestre de 2025 da SPA. Combinado com controles mais rígidos sobre meios de pagamento e canais de marketing, a pressão regulatória empurrou sistematicamente os operadores ilegais para fora da visibilidade.
O que esperar: custo crescente
O cenário que emerge é claro: o mercado brasileiro está aberto, mas o custo de competir cresce rapidamente. Uma licença federal coloca o operador dentro do jogo, mas conquistar participação relevante agora exige escala, orçamento e maturidade operacional para competir com incumbentes bem financiados. Para operadores avaliando entrada no Brasil, a janela de oportunidade ainda existe — mas está se estreitando.