Com praticamente 100% das transações do mercado de apostas — legal ou ilegal — passando pelo Pix, o controle do sistema de pagamentos instantâneos se consolida como a ferramenta mais eficiente para estrangular operadoras clandestinas no Brasil
Durante o BiS SiGMA South America 2026, realizado de 6 a 9 de abril no Transamerica Expo Center em São Paulo, Leonardo Baptista, CEO da Pay4Fun, fez uma afirmação que sintetiza a nova estratégia de combate às apostas ilegais no país: "Todas as transações no mercado de apostas, legal ou ilegal, se baseiam em Pix." A declaração, feita em entrevista ao Poder360 na quarta-feira, 8 de abril, carrega uma implicação direta — se o governo controlar o acesso ao Pix, controla o fluxo financeiro que sustenta as operações irregulares.
De 40% para 20%: a projeção de Baptista
Segundo o CEO da Pay4Fun, a restrição de acesso ao Pix para operadoras sem licença da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) pode reduzir o mercado irregular de apostas de 40% para 20% até o final de 2026. A estimativa se baseia na experiência da própria Pay4Fun, que foi a primeira instituição de pagamento autorizada e regulada pelo Banco Central para operar no mercado de apostas brasileiro. A empresa processa depósitos e saques em aproximadamente 0,4 segundo, com capacidade de pico de 2.500 transações por segundo — infraestrutura que demonstra a escala das operações financeiras no setor.
A lógica do argumento é simples: com cartão de crédito proibido e transferência bancária tradicional praticamente abandonada pelos apostadores, o Pix tornou-se o método de pagamento único do mercado de apostas no Brasil. Se o Banco Central e a SPA restringirem o acesso de operadoras não licenciadas ao sistema Pix — seja por meio de bloqueio de chaves, notificação a instituições financeiras intermediárias ou encerramento de contas de recebimento —, as plataformas ilegais perdem a capacidade de processar transações financeiras de forma ágil, tornando-se inviáveis operacionalmente.
25 mil URLs bloqueadas: o balanço da fiscalização
Os números do primeiro ano de fiscalização reforçam a escala do desafio e o avanço da resposta governamental. Entre outubro de 2024 e dezembro de 2025, a SPA e a Anatel bloquearam mais de 25 mil URLs de sites de apostas ilegais no Brasil. Somente no primeiro semestre de 2025, foram 15.463 páginas retiradas do ar. O secretário de Prêmios e Apostas, Regis Dudena, afirmou em balanço oficial: "O ano de 2025 marcou a primeira vez que o Estado esteve plenamente presente nesse mercado."
Na frente financeira, 54 instituições financeiras e de pagamento enviaram 1.255 comunicações à SPA, identificando 1.687 pessoas com indícios de transferências para empresas de apostas não autorizadas. Como resultado, 550 contas bancárias foram encerradas, sendo 265 confirmadas como vinculadas a operações ilegais. Na publicidade, a SPA concluiu 412 processos de fiscalização contra anúncios irregulares em redes sociais, resultando na remoção de 324 perfis de influenciadores digitais e 229 publicações que promoviam plataformas sem licença.
O cerco financeiro como política de Estado
O enfoque no controle financeiro como pilar da fiscalização reflete uma mudança de estratégia por parte do governo. Enquanto o bloqueio de URLs pela Anatel é eficaz mas tecnicamente limitado — sites ilegais migram para novos domínios com facilidade —, o estrangulamento financeiro ataca o ponto mais vulnerável das operações clandestinas: a capacidade de receber e pagar dinheiro. Uma plataforma ilegal pode mudar de domínio em minutos, mas não consegue operar sem acesso ao sistema de pagamentos.
A regulação brasileira, que completou 15 meses de vigência em abril de 2026, consolidou um ecossistema de 187 operadoras licenciadas com domínio obrigatório .bet.br. As plataformas autorizadas passam por rigorosas exigências de KYC (Know Your Customer), prevenção à lavagem de dinheiro e verificação de identidade — infraestrutura que as diferencia estruturalmente das operações ilegais, que operam sem controle algum sobre a identidade dos apostadores ou a origem dos recursos.
Copa do Mundo e a pressão sobre o sistema
Baptista sinalizou que a Copa do Mundo 2026, que terá início em junho nos Estados Unidos, México e Canadá, será "um impulso brutal para o mercado" — tanto para as operadoras legais quanto para as ilegais que ainda resistem. O aumento exponencial de volume de apostas durante o torneio testará a capacidade de processamento das fintechs autorizadas e, simultaneamente, ampliará a pressão sobre o sistema de fiscalização para impedir que plataformas clandestinas capturem apostadores desinformados.
"O primeiro ano foi de adaptação. Agora entramos na fase de consolidação", resumiu o CEO da Pay4Fun. A frase traduz o momento do mercado brasileiro: com a infraestrutura regulatória implantada, o foco migra da construção de regras para sua aplicação efetiva. E nessa batalha, o Pix — criação genuinamente brasileira — se revela não apenas como a moeda corrente das apostas, mas como a arma mais potente do Estado para separar o mercado legal do ilegal. O cerco financeiro, mais do que o bloqueio tecnológico, pode ser o que finalmente define os contornos de um mercado regulado de fato — e não apenas de direito.